sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Um professor aposentado

Por Cristóvão Villela

Ilustração: Dayse Gomis




- Bom dia, mestre!

- Bom dia, amigo!

- Sabe o Dr. Curatende, ganhou um prêmio de medicina. Você conheceu?

- Sim, desde quando ele frequentava a escola fundamental, foi meu aluno na 5ª; 6ª; 7ª e 8ª séries. Sempre foi bom aluno. Lembro-me muito bem dele, estudou na mesma época do Tiãozinho, jogador de futebol que está lá na Europa, jogando um bolão e recebendo em euros, rs...

- Você também lecionou pra muita gente.

- Verdade.

- E aquela atriz, que está na novela das oito? Lembro-me que falou dela no começo da sua carreira.

- Sim, boa garota. Lembro-me que em uma aula, ela fez uma representação pra justificar uma tarefa não cumprida. Eu logo pensei, essa garota é uma atriz. Não deu noutra. Lecionei também para aquela modelo internacional. Linda, desde criança chamava a atenção, a garotada ficava louca, todos os meninos queriam sentar perto dela. Hoje está bem sucedida para a nossa felicidade. Lecionei para um atleta olímpico, esse acho que não lembra de mim não, mas tudo bem. O importante é que esteja bem e feliz. Houve um garoto que tive alguns arranca-rabos com ele, rsrsrsr, fazia bagunça demais, atrapalhava as aulas, arrumava encrenca com os colegas, esse deu trabalho. Hoje é político, deputado federal, vota em tudo que eu discordo, mas fazer o quê?

- São muitos alunos em uma sala de aula, tem turma com mais de 40, cada um querendo a sua atenção. Depois do dia de muito trabalho, vamos para casa e preparamos as aulas para o dia seguinte, procuramos nos atualizar, pois sempre queremos fazer o melhor, temos que ser um exemplo. As vezes a exaustão nos faz cometer alguns deslizes, dar uma bronca desnecessária, o que nos incomoda por meses.

- Ministrei aulas para muitos advogados, engenheiros, artistas plásticos, bailarinos, pedreiros e empresários, pessoas de muitas profissões. Alguns alunos seguiram caminhos diferentes, tiveram menos sorte, mas não a maioria. Mas a gente fica muito feliz, muito feliz mesmo, quando vemos o sucesso de nossos alunos.

- Poxa professor, você ainda mora no mesmo lugar.

- Sim, na mesma casa, com dificuldade para pagar as contas e para me alimentar como desejaria, mas com muita alegria em saber que a tarefa foi cumprida.


OS FATOS COM OS ALUNOS CITADOS ACONTECERAM NA REALIDADE, APENAS OS NOMES SÃO FICTÍCIOS.



Feliz Dia das Professoras e Professores, a profissão mais nobre de todas, pelo simples fato de que todas as outras só existem porque existem professoras e professores.

terça-feira, 3 de agosto de 2021

O Barão sempre atual

  

Ilustração Cacinho 

Por Cid Benjamin*

As Forças Armadas estão preocupadas com a deterioração de sua imagem, devido à identificação com o governo Bolsonaro. O desconforto se deveria especialmente devido a charges e piadas, relacionando-as com corrupção. 

Pesquisa recente da Datafolha mostra que 54% das pessoas são contrárias à ocupação de cargos civis por militares. Certamente as trapalhadas do general Eduardo Pazuello na Saúde e a bandalheira na compra de vacinas, que vieram à tona na CPI da Pandemia, contribuíram para tal.

Vantagens materiais de todo tipo - além de identidades no plano ideológico – levaram os militares a mergulharem de cabeça no governo Bolsonaro. Só que isso os deixou na mira das gozações. 

“Entre sem bater”

O Brasil tem tradição de humor na crítica política. Ela vem do Império, quando dom Pedro II era um alvo habitual. Nossa maior figura nesse campo foi Apparício Torelly (1895-1971), o Barão de Itararé. Seu pseudônimo já era um deboche. Na Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder, era esperado um tremendo confronto em Itararé – na divisa entre o Paraná e São Paulo. Mas entrou na história como o conflito em que não foi disparado um só tiro. Torelly apresentou-se, então, ao país como o herói da batalha que não ocorreu.

Certa vez seu jornal, “A Manha”, foi invadido por oficiais da Marinha que o espancaram, em represália à publicação de fascículos sobre a Revolta da Chibata. O Barão não se deixou intimidar. Afixou na porta da redação o cartaz: “Entre sem bater”.

Acusado de ligações com o Partido Comunista, Torelly foi preso na ditadura do Estado Novo. Ao chegar ao cárcere da Ilha Grande, recebeu um questionário que deveria preencher. Como seria de se esperar, as perguntas eram idiotas. Uma delas: “Tem vícios secretos?” O Barão não perdoou: “São secretos”, respondeu.

Ele logo se tornou uma figura popular. Em 1947, candidato a vereador no Rio de Janeiro, foi eleito. Seu lema era “Mais água e mais leite. Mas menos água no leite”.

Febeapá 

Na ditadura militar, nossa tradição de humor político se manteve. Sérgio Porto, que assinava coluna na “Última Hora” com o nome de Stanislaw Ponte Preta, foi uma pedra no sapato dos donos do poder. Criou o Febeapá – “o festival de besteiras que assola o país” – para comentar as asneiras diárias. 

Pouco depois foi criado por um grupo de humoristas o semanário “Pasquim”, herdeiro do Barão e de Stanislaw. Submetido à censura de forma intermitente, criou um aviso, publicado na primeira página: “Se este selo estiver aqui, o Pasquim não está sendo censurado”. Quando voltava a censura, o selo desaparecia, claro.

Agora, as estultices do presidente genocida e seus amigos fardados e milicianos fizeram o humor político reaparecer em grande estilo. E com um elemento adicional: a internet e as redes sociais, antes inexistentes, lhe oferecem novos espaços de divulgação.

Para Bolsonaro, reagir à gozação com violência implicaria caminhar para a ditadura. Embora esta seja o regime dos sonhos do capitão, no momento não há condições para implantá-la. O que ele faz, então, é vez por outra processar um humorista. Mas é pior: só aumenta o ridículo. 

Assim, mesmo que o Exército esteja preocupado com o desgaste, não há saída enquanto continuar no colo de Bolsonaro, pois o capitão não vai mudar. Afinal, como dizia o Barão de Itararé, “de onde menos se espera é que não sai nada mesmo”.

*Jornalista

**Artigo também publicado na Revista Fórum


Ao amigo Vicente Melo


Por Clóvis Lima

Fico imaginando o que o Vicente Melo falaria dele mesmo nesse momento, pois não sei se o texto que me atrevo a escrever estaria a sua altura. Vou me arriscar.
Talvez ele fizesse uma piada dele mesmo com aquele humor inquieto e mordaz.
Talvez ele esteja fazendo isso agora mesmo, rindo e confabulando ideias.
Vicente é assim, uma figura inquieta e às vezes indecifrável.

Conheci Vicente quando trabalhava na In Laser, um bureau de impressão na Vila Santa Cecília, ainda no Edifício CBS II, no sétimo andar. Acho que foi em 1992. À primeira vista, ele não impressionava. Chegava e ficava como quem estivesse já ali, como parte do ambiente. Sempre elegante com sua camisa social, falando pouco e se mostrando atento aos detalhes. Mas bastava alguns minutos de convivência para se tornar um grande amigo dele. Elegante não só na vestimenta, elegante também quando dava pitaco em nosso trabalho. Parecia que estava sempre um passo a nossa frente. Vejo Vicente Melo como um apaixonado pelo mundo das ideias, apaixonado pela criatividade, enfim, um apaixonado que também sabia nos apaixonar pelas ideias. Foi na In Laser que também conheci Cristóvão Villela, uma espécie de continuação do Vicente, digo isso pois o Cristóvão conseguia traduzir lampejos de ideias do Vicente Melo para se transformar em charges sofisticadas.

A face mais indecifrável do amigo foi sua vida durante a ditadura. Nunca me revelou muita coisa. O pouco que sei, por respeito a ele vou suprimir desse texto. Se ele não contou, quem sou eu para contar? Mesmo sendo ele mais um dos muitos perseguidos nos anos de chumbo, dificilmente transparecia. Vicente sabia viver o momento presente e sem querer nos ensinou isso. Ele sabia se levantar. Teve na década de 90 que conviver com a perda se seu filho Rafael, um grande cara que tive o prazer de conhecer, alegre como o pai. Vicente perdeu seu filho mais velho e acabou nos adotando a todos.


Engraçado como tudo parecia mais leve quando eu o encontrava na Vila, na padaria ou nos eventos culturais. Ainda me lembro quando em 2016, após o golpe na Dilma, ainda apreensivo e sem chão, encontrei-o na padaria no Aterrado e trocamos algumas ideias sobre o que havia acontecido. A serenidade dele era de quem já havia testemunhado parte da história do Brasil e por isso deixava escapar dos olhos uma esperança. Já lá em 2016 ele me disse com todas as letras que aquele era só o começo, que Lula seria preso e que a tendência era, por hora, a coisa piorar. É bom grifar o “por hora” nesse texto pois ali estava sua esperança de que o mal fosse passar. Vai passar, sim, Vicente. Muita coisa passa. Nossa amizade não.


Os soluços, o intestino preso e o Cabo Tenório

Ilustração Clovis Lima

Por Cid Benjamin

Em outubro de 1968, em plena ditadura militar, um congresso da União Nacional de Estudantes (UNE) foi localizado pela polícia em Ibiúna, São Paulo, e quase mil estudantes presentes acabaram presos. 

O episódio foi antes do AI-5, que só aconteceria em dezembro do mesmo ano, e a repressão ainda não era a mesma dos anos de chumbo. Não havia condições políticas para manter aquela multidão de estudantes presos. Afinal, a acusação era apenas de participar de uma reunião. Depois de um ou dois dias no xadrez, foram todos enviados para os estados de origem e, pouco depois, libertados. Apenas cerca de dez ou onze, identificados como os líderes mais importantes, foram separados dos demais e ficaram mais tempo na cadeia. 

O grupo com os supostos líderes foi transferido inicialmente para um quartel do Exército em Santos, no litoral paulista. A unidade militar era comandada pelo àquela altura já conhecido coronel Erasmo Dias, que tinha sido secretário de Segurança de São Paulo e se arvorava de integrante da chamada “linha dura”.

Logo no primeiro dia, Erasmo resolveu dar um susto na estudantada. Dispôs todos perfilados numa quadra de basquete do quartel, cercados pelos quatro cantos por soldados que, deitados no chão, pilotavam metralhadoras ponto 30, e pronunciou um tonitruante discurso, encerrado com a ameaça: “Não estou para brincadeira. Quem tentar fugir ou desrespeitar alguma ordem vai morrer”, disse apontando as metralhadoras.

Em seguida, emendou com a voz empostada, como fazem alguns militares quando querem demostrar autoridade: “Alguma dúvida”?

Eis que Luís Travassos, presidente da UNE, levanta um dedo e pergunta, candidamente: “Coronel, onde é que se mija aqui?” Depois de um instante de perplexidade, com uma ponta de dúvida sobre se deveria levar a pergunta a sério ou se estava sendo sacaneado, Erasmo ordena, sempre com uma firme voz de comando: “Cabo, leve o estudante para urinar!”

Foi uma espécie de anticlímax. 


Tiro n’água

Eu me lembrei desta historinha, diante da situação criada pelas ameaças dos comandantes militares à CPI da Pandemia nos últimos dias. A nota que redigiram, ameaçando mundos e fundos, foi um tiro n’água. Não surtiu o menor efeito. Ao contrário, despertou manifestações de apoio à CPI e a seu presidente, o senador Omar Aziz. 

O que poderiam fazer os chefes militares, depois de pagarem aquele mico – para usar uma expressão a gosto dos jovens de hoje? Proibir que generais e coronéis fossem investigados? Prender alguns senadores? Mandar acabar a CPI? Qualquer das alternativas significaria um atropelo brutal às instituições.

A nota caiu no vazio e não teve qualquer efeito

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro padecia, há vários dias, de uma insistente crise de soluços. Alguns identificaram a origem do problema como de fundo nervoso. Afinal, há algumas semanas o capitão só recebia notícias ruins. 

Como desgraça pouca é bobagem, adveio-lhe outro problema: uma obstrução intestinal que fez com que os médicos recomendassem a sua transferência para um hospital em São Paulo. 

Logo depois constatou-se, porém, que não seria preciso uma cirurgia – o que chegou a ser aventado no primeiro momento. Melhor assim. Não há por que se desejar o mal a alguém – mesmo que esse alguém seja um adversário político.

Já quanto aos soluços, não se sabe se continuaram, nem se sua origem era mesmo de fundo nervoso. Porém, as más notícias não dão uma trégua ao presidente. Mesmo com a suspensão dos trabalhos da CPI da Pandemia por 15 dias, devido ao recesso do Senado, as perspectivas não são boas para ele. Os senadores já informaram que aproveitarão a parada para cruzar informações e investigar novas denúncias.

Tudo indica que no Ministério da Saúde estão batendo cabeça duas quadrilhas - uma formada por parlamentares ligados ao Centrão; outra operada por militares. E para a sustentação do governo Bolsonaro, tanto o Centrão, como os militares são importantes. Como o presidente poderia arbitrar a disputa sem criar enormes problemas? É, de fato, uma senhora dor de cabeça.

A disputa pelo controle de “negócios” é feroz e as informações começam a vazar. Foi lama no ventilador. (Atenção: ao admitir a hipótese de militares envolvidos em corrupção, não me refiro aqui às Forças Armadas em seu conjunto, mas a integrantes dela que, supostamente, teriam se envolvido em procedimentos, digamos, não republicanos.)


Fundo nervoso?

De qualquer forma, se a suspensão temporária dos depoimentos na CPI pode trazer um refresco imediato ao presidente, isso talvez seja fugaz. Pode até dar um alívio para os soluços de Bolsonaro – caso eles sejam mesmo de fundo nervoso. Mas, por quanto tempo? E depois?

A tentativa de enfrentar com ameaças as denúncias de corrupção envolvendo militares em cargos civis não resolve. A nota dos chefes militares mostrou isso. A rigor, só resolveria se vivêssemos numa ditadura aberta, o que (pelo menos ainda) não acontece, apesar dos desejos do presidente. E fica a dúvida: prevalecendo a situação atual, até quando os militares no governo poderão ser blindados? Assim, é forçoso reconhecer que, se forem mesmo de fundo nervoso, os soluços de Bolsonaro poderão voltar diante de novas contrariedades. 

A situação me fez lembrar uma música gravada por Jackson do Pandeiro. Num ritmo contagiante, ela conta a história de um tal Cabo Tenório.

O cabo era useiro e vezeiro em se meter em confusão. Quando isso acontecia, distribuía bordoadas a rodo. Só se acalmava quando todos reconheciam que ele era mesmo o maioral e cantavam uma música com o estribilho: “Cabo Tenório é o maior inspetor de quarteirão”. Aí tudo se acalmava e voltava às boas.

Pois bem, não parece que no momento haja muita gente por aí reconhecendo Bolsonaro como o maioral – nem no papel de presidente, nem mesmo no de inspetor de quarteirão. Muito menos parece haver a gente disposta a cantar isso em prosa e verso. Assim, dificilmente Bolsonaro receberá uma homenagem como a que acalmava o Cabo Tenório. 

Por isso, caso seu soluço seja de fundo nervoso, o problema pode não passar tão cedo. Talvez, até se agrave.

E crise de soluço é uma coisa muito chata mesmo.

Fé na Arte


 Ilustração Mani Ceiba

Por Mani Ceiba

“Se aceitarmos o significado de arte em função de atividades tais como

a edificação de templos e casas,

realização de pinturas e esculturas, ou tessitura de padrões,

nenhum povo existe no mundo sem arte.” (GOMBRICH, 1999, p.19).


Encantada por mitologias e estudos de civilizações, sempre levei isso para minha arte, inclusive por não ser nem ter uma criação cristã.  Para mim, as formas artísticas onde a arte se manifesta através do cotidiano dos povos são todas da mesma importância e beleza. Tenho um apreço maior pela arte dos grafismos e arte indígena, talvez por esta descendência ser forte na minha memória emocional. 

Minha compreensão e forma de viver da arte não está separada de quem eu sou. A arte faz parte de mim e não a desvinculo apenas como um trabalho remunerado. Muitas vezes essa forma de arte é rejeitada no mundo mercadológico a que estamos acostumados, a arte como maneira de ser. 


Uma arte que não é produto de mercado e sim expressão de uma atitude para com a vida, de uma forma de se portar diante da existência, atestando a sacralidade de tudo que envolve o viver (PASTRO, 2010).


A arte dos povos indígenas é isso. Na arte indígena, através da pintura corporal, etnias diversas exprimem as fases da vida de um membro (luto, doença, resguardo, rituais de transição) ou situações comunitárias como guerras, rituais religiosos. Ela é marcadora dos ritmos e tempos da vida (VIDAL, 1978). Não é arte para ser vendida ou apenas para ser bela, nem para simples deleite de quem observa ou valorização de quem a ostenta. Uma indígena que pintou o corpo de outra não assina seu nome na obra, pois a arte não é algo descolado da vida e sim, antes de tudo, é sua expressão e seus tempos demarcados pelos elementos pintados e materiais utilizados. Os colares e cestaria são belos porque a natureza é bela e a arte já está inserida nela. 

A origem para a palavra “religião” vem do latim, que significa respeito pelo sagrado. Outra etimologia que é discutida é da palavra RELIGARE, também do latim, que significa atar. Definição para arte não é tão simples mas pode-se dizer que é algo que se comunica, transcendendo a linguagem de palavras.

Desde o princípio da história da humanidade, arte e a religião estão ligadas. Nas pinturas rupestres, na suntuosidade da arte egípcia, minimalismo da arte budista, nas catedrais góticas, na busca pela luz dos iluministas. No simbolismo do próprio divino na arte muçulmana e seus arabescos geométricos perfeitos como símbolos abstratos. Nas formas de demonstração da consciência e de comunicação do que está ao redor e dentro de si mesmo, a arte faz a comunicação direta entre emissor e receptor mesmo quando sendo representativa. 

Sendo assim a própria arte não pode ser, para o artista, a sua religião? Respeito pelo aquilo que é sagrado pra si, independente de crença, nome dado para Deus ou prática e te ata a algo que é além da compreensão da lógica e racionalidade. 

Algumas filosofias orientais dizem que Deus está onde está seu coração. Se meu coração está na arte e ela me religa aquilo que tenho de mais verdadeiro e profundo, então posso não chamar de Deus ou Deusa e sim de Arte apenas, aquilo que me transforma e transmuta. Algumas antigas escolas de ocultismo e magia chamam seus estudos de a grande Arte, obras com o objetivo de descobrir a fonte da vida, ser íntegro, concentração, descobertas dos mistérios que poderiam ser os alicerces sobre os quais repousa a felicidade do homem. 

A Grande Arte?! Nossa vida pode ser uma grande Arte! 


terça-feira, 6 de julho de 2021

A ARTE LIBERTA O ESPÍRITO


Ilustração Mani ceiba

Por Mani Ceiba

Na relação arte e vida eu vejo uma dança de enlaces, onde não se pode claramente limitar onde é arte e onde é vida. Quando alguém diz: “Não entendo nada de arte”, eu sempre penso  realmente se confundi muito gostos e referências acadêmicas com o que é arte. Quando alguém diz que não sabe fazer arte, imediatamente eu me lembro de um pensamento de Nietzsche em O nascimento da tragédia onde ele diz:  "Só como fenômeno estético, a existência e o mundo aparecem eternamente justificados". (GT/NT, Ensaio de autocrítica 5, KSA 1.17). Nietzsche defende que o sonho e a embriaguez são condições necessárias para que a arte se produza; por isso, o artista, sem entrar em um desses estados, não pode criar. 

Eu entendo aqui a embriaguez não só alcançada através de meios externos, mas a embriaguez de estados que experimentamos através da dor, de uma situação de felicidade extrema, numa paixão violenta ou qualquer estado emocional que nos deixe entorpecidos, paralisados ou totalmente sem controle.

E como sonho... Se você sonha, dormindo ou acordado, se você é capaz de produzir imagens na sua mente, você possui a força da arte dentro de você e pode entender o poder de libertação que a arte possui, utiliza, faz morada e ainda dá a passagem.

Quando está cansado ou triste e uma música te apoia ou te reanima. Quando chora com um filme ou dança enlouquecidamente dentro do seu quarto, permite que algumas formas da arte mostrem seu poder.

Não há nada de errado, diz Schopenhauer, em querer desligar-se do mundo por uns breves instantes, para contemplar a vida sem se deixar afetar por todas as suas crueldades. Para poder se divertir e divergir. Buscar a paz. Quando a pessoa se perde no objeto, para além de qualquer objeto, ela se torna uno e isso é o que a arte faz. Ela nos liberta para podermos retornar para nós mesmo unificados

Frida Kahlo para mim representa tudo isso! 

As dores, as alegrias e os sofrimentos vindo de amores, lutas e de escolhas na vida todos temos. Podem ser abismos profundos, podem ser dores inimagináveis. Quem sempre decide ser quem se é de verdade enfrenta o mundo! 

Tudo o que somos está dentro de uma mente e de um corpo, com mão, pés, órgãos... Nascemos encarcerados, por isso choramos. Com o tempo descobrimos que estamos dentro de uma casa móvel. Percebemos que apesar de estarmos presos dentro desse corpo, ainda podemos levar essa casa também. Isso alivia a prisão. Com o tempo nos identificamos com esse lugar, alguns passam a acreditar que são essa casa apenas e cuidam só dela inclusive, mas isso é outro assunto...

Mas Frida foi encarcerada mais uma vez. Seu corpo, sua casa, também estava preso. E a arte mais uma vez mostrou seu poder, através dos olhos, ouvidos e mãos de quem estava pronta para deixar a arte transitar e libertar. Só não é uma possessão porque a arte é tão generosa que ela não controla, ela apenas permite. 

A arte permite. O julgamento vem de quem olha com deturpações e limitações. Arte é uma expressão magnífica do amor. Pela arte Frida grita a sua dor, se mostra inteira, caminha através do tempo e nos faz pensar e sentir. 

Hoje em homenagem ao aniversário de nascimento e às vésperas ao de morte de Frida Kahlo eu me lembrei de uma música antiga que até por questões comerciais de gravadoras não é considerada tão boa. Mas a letra fala do amor pela arte. O amor pela música como uma representação da arte. Reproduzirei uns trechos aqui. A música foi gravada por Andrea Bocceli em 1997:

“Vivo por ela sem saber
Se eu a encontrei ou ela me encontrou
Já não lembro como foi
Mas, no fim ela me conquistou...

Vivo por ela que me dá
Força, valor e realidade
Para me sentir um pouco vivo...

Como dói quando falta (por ela, vivo em um hotel)
Como brilha forte e alta (por ela, vivo na própria pele)
Se ela canta em minha garganta
Minhas mágoas mais escuras se espantam

Vivo por ela e ninguém mais
Pode viver dentro de mim
Ela me dá a vida, eu a vivo”

Que todos os artistas que se libertam através da arte sirvam de inspiração para todas as faltas de amor no mundo.



 

segunda-feira, 28 de junho de 2021

É que Narciso acha feio o que não é espelho?

 

Por Mani Ceiba

Ilustração Carol Cospe Fogo

Será? Será mesmo que faz parte da qualidade humana ser igual para ser aceito? Será que somos mesmo tão limitados que aquilo que não conhecemos ou identificamos não podemos admirar, respeitar ou pelo menos não julgar?



Quando era criança, meus pais tinham amigos gays. Eu nunca vi diferença, até que um dia ouvi um vizinho fazer uma piadinha, eu tinha uns 10 anos... Um dos melhores amigos da minha mãe, era bem mais novo que ela, o tio Roberto tinha um namorado, o tio Salomão... Eu nunca achei estranho, nunca perguntei nada sabe por quê? Porque criança não questiona o óbvio, não questiona onde se sente segura e amada! Eles eram maravilhosos comigo, me faziam cócegas e me levavam no ombro pra ver o circo. E isso é o que era importante para mim e para meus pais. Sabiam que eles eram confiáveis. Quando meu pai morreu, a primeira pessoa que veio falar comigo e me contar o que houve foi o tio Roberto. Eu não era mais criança, era uma adolescente rebelde, militante e roqueira mas louca pelo pai, a única autoridade que eu ainda respeitava! Tio Roberto me sentou no colo dele e disse:  – Rainha, tenho algo muito sério pra te contar - e chorou comigo...



Ali nasceu uma amizade que durou muito tempo...Ele que me conheceu criança, 20 anos mais velho que eu, virou meu melhor amigo... Não tinha um assunto que eu não podia dividir com ele, não existe medo, não existia julgamentos... Apenas experiência e orientação... e diversão!! Ahhh a gente se divertia!! A primeira vez que saímos juntos para a noitada eu nunca vou esquecer! Primeira regra – NUNCA MAIS ME CHAME DE TIO!! Segunda regra – SÓ PRECISO SABER QUE VOCÊ ESTÁ FELIZ E SEGURA. Um mundo se abriu para mim que eu não sabia que existia! Eu tinha amigas, as bestfriends da juventude, a gente saia, se divertia. Mas com Roberto era diferente. Eu não tinha que cuidar dele como lidava com as “amigas”. Eu tinha amizade, real e verdadeira, eu podia trocar de roupa na frente dele e perguntar se ia ou não de bota, com proteção e segurança numa mesma pessoa. 



Com o tempo, eu fui conhecendo mais do seu mundo e também dos seus amigos e amigas. A família do Roberto não sabia que ele era gay. Um homem de 40 anos, dono da sua vida, profissional com prêmios reconhecidos, que viajava o mundo, que tinha uma conduta moral indiscutível, não podia naquele momento (estamos falando dos anos 90) assumir para a família e a sociedade algo que ele era, algo que fazia parte dele porque tudo isso seria julgado de modo injusto e preconceituoso!! Ele tinha que mentir! Mentir pra mãe, pro pai... Isso o afastava mais e mais da família...E ele não era o único! Em uma festa de aniversário, pequena, no apartamento dele, eu conheci os amigos mais íntimos... Piloto de avião, engenheiro, advogado que não assumiam sua sexualidade fora daquele apartamento porque sabiam que o preço a pagar era alto demais, e a luta interna só pra ser quem se é já era dura.



Meu amigo Roberto contraiu AIDS. O mais irônico que foi de um namorado que eles estavam juntos fazia alguns meses. Ver Roberto lutar contra essa doença e perder foi duro e a família não estava lá.

Imagine alguém da sua família que ama muito. Você gostaria de saber que essa pessoa que está morrendo não confia em você pelos julgamentos que você possa fazer sobre ela?



 Um dia, com um amigo trans, estávamos indo no mercado comprar umas frutas. No caminho, cruzamos com quatro meninas de uns 15 anos no máximo com uniforme de colégio militar. Essas meninas começaram a de longe apontar meu amigo e falar coisas fortes e rir! Rir dele! Eu fiquei muito brava, quem me conhece sabe que o sangue esquenta rápido aqui dentro... Eu quis responder! Meu amigo me segurou e disse: “Não!! Só segue!” Obedeci mas com sangue nos olhos! Até ele me explicar:

- Eu vivo isso todo dia! Eu vou cruzar com essas meninas (ou outras iguais) todos os dias, em cada balcão que eu paro, em cada uber que eu pegue, em cada caixa que eu passo, em cada vez que eu pergunte pra alguém na rua que horas são. Se eu for revidar sempre e sentir raiva minha vida vai ser só isso! Eu não posso transformar minha vida, o que eu sou em apenas raiva e revolta. Já foi difícil demais assumir para mim mesmo quem eu sou. Agora eu só quero viver quem sou.



Um dia eu estava pensado que talvez o preconceito venha da inveja também. Inveja, dos sem amor, de ver que apesar de todos os não, de toda a pressão, de todo o julgamento, essa força de ser quem se é maior! O que você quis ser e não foi por medo da sociedade, da religião e deturpação de valores?

E aí você olha do lado e vê quem com muito mais motivo para ter medo vai lá e se mostra! 

Morram de inveja, porque nós vamos passar e podem rir e xingar... vamos passar assim mesmo!



quarta-feira, 16 de junho de 2021

O dia que o vibrador virou um elefante branco na sala

 


Ilustração da nossa convidada especial Carol Cospe Fogo


Por Mani Ceiba

Bom, antes de tudo preciso explicar um pouco como é meu jeitinho de ser e viver para ajudar na visualização dessa história. Eu detesto festas, qualquer uma. Descobri recentemente que até as virtuais podem ser ruins porque não tem a área externa, varanda ou quintal pra fugir de uma conversa chata. Mas voltando, aniversários, velórios, festa de casamento, natal, tudo pra mim é ruim... Na verdade o que eu não gosto é de aglomeração de pessoas. Quando alguém fala “tá lotado, vem!”. Aí que não vou mesmo. Muita gente, muita informação, sou muito sensível a perfumes e as pessoas adoram perfumes e não combinam de usar todas o mesmo!

Sou nascida em família italiana. Sim, a italiana casou com um indígena, e todos falam alto, gesticulam, final de festa todos bêbados falando mais alto ainda, traumatizei? Pode ser... o fato é que é assim! Outra coisa, sou bem comunicativa no trabalho, com as amigas, vez ou outra nas baladas da vida. Quem não me conhece me acha a desinibida e convencida, mas na verdade sou super tímida e insegura quando estou em uma situação em destaque sem trabalho ou defendendo um ideal. Minhas bochechas queimam e meu corpo todo começa a tremer por dentro quando estou em uma situação que para mim é embaraçosa, parece que os órgãos resolveram dançar rumba!

Agora sim, seguimos com minha narrativa. Uma grande amiga... sabe aquela que a gente conheceu na escola e apesar de todas as diferenças que se apresentaram na vida, a amizade seguiu? Então, a felisberta resolveu se casar, com tudo, igreja, vestido, buffet (detesto tudo) e pior, despedida de solteira... Dias insistindo para eu ir, disse que teria muitas bebidas, na época eu era fã de uma bebida que em São Paulo se chama submarino, é tequila que mergulha no chopp, o negócio é econômico, você bebe um e pronto... Diante desses entretenimentos tão sedutores, topei. Só que na minha cabeça, era uma festinha entre mulheres, bebidas, risadas, no final umas e outras sem roupa dançando, ela abriria os presentes, riríamos e fim. Talvez a influência de filmes e séries norte-americanas também tenham colaborado para isso. 

Recebi uma lista de uns presentes que ela gostaria de ganhar, frigideira de cerâmica, cortina antimofo pro banheiro, conjunto de taças... deveria ter desconfiado aí? Deveria! Mas no final desse convite/lista tinha uma opção assim: “Escolha algo que seja especial para a noiva e que acredite que seja único para ela”. Não tive dúvidas, é nesse que vou! Comprei um vibrador! Lindo, grande, que rodopiava. Escrevi na dedicatória algo como: “Depois que casa, o sexo acaba, então será bem mais útil que a frigideira”. 

Escolhi uma roupa para despedida de solteira, na minha cabeça claro, decote, vestido curto e fui com minha caixinha devidamente embrulhada em um papel roxo brilhante. 

Toco a campainha e a porta se abre, uma moça que nunca vi. Entrei, ela pega da minha mão a caixa e coloca em cima de uma mesa cheia de outros presentes, havia umas 15 mulheres mais ou menos... A desconhecida falando sem parar, me segurando pelo braço e aí aparece minha amiga, meio incomodada e me diz: “Ainda bem que você veio, minha mãe trouxe minhas tias e primas e isso aqui tá bem chato”. Sim! Era basicamente uma reunião de família!! Perguntei sobre as bebidas e isso pelo menos estava liberado. 

Em algum momento, a mãe e as tias que pareciam avós falaram como ia funcionar. Ela ia ficar no centro da sala, em cima de uma mesa abrindo os presentes, tinha que tirar da caixa e mostrar! E tinha que adivinhar de quem e o que era e claro, ler o cartãozinho!! Se errasse tinha um castigo. Sinceramente não dei a mínima pra brincadeira, minha única preocupação: “Como sumir com aquele pacote roxo brilhante”!!

Tentei, mas aquela desconhecida da porta parecia um pitbull guardião dos pacotes. Pensei: “Vou fugir antes”. Também não consegui! A brincadeira começou...: “Hum, essa caixa da tia Paula..., deve ser um faqueiro! Ah que texto lindo tia! Essa caixa da tia Joana, copos”!! Felicitações e sobre como ser uma boa mulher casada... Pegaram a caixa roxa brilhante, pensei em ir no banheiro na hora, mas não deu tempo, lembra do submarino? Tava meio devagar já... Ela abriu e todas viram o vibrador! E num silêncio absurdo onde dava pra ouvir meus órgãos tremendo, ela leu o cartão! E todas olharam pra mim, todas! Até a cachorra deitada no tapetinho e acho que até a samambaia pendurada perto da janela! Ela disse com uma cara meio de felicidade meio de desespero: “Esse presente é seu”! Eu respondi “É”! 

Não sei bem o que houve, parecia que todo mundo decidiu fingir que aquilo não aconteceu e fizeram um acordo telepático e continuaram a brincadeira. Mas aquele órgão imenso e rosa  ficou em cima do jogo de taças no canto da mesa...

Climão, ninguém mais falava comigo, eu querendo ir embora e minha amiga falando: “Fica só mais um pouco, ainda não consegui beber e vamos beber”. Fiquei, já tinha muito mais que tequila e cerveja no meu sangue, acho que já estava no modo – que se dane! Tô eu ali sentadinha sozinha, senta uma das tias do meu lado e fala sussurrando: “Eu tenho um desses, só que pequeno. Achei diferente esse”! Levanta e sai... Depois uma prima: “Vai pilha”? Depois outra prima e outra tia. E isso se repetiu escondido no canto da sala algumas vezes e eu olhando o causador do incomodo em cima da mesinha brilhante e orgulhoso. 

Como gosto de sair sempre de festas sem anunciar, decidi ir Mas antes liguei o vibrador e deixei ele rodopiando e saí.

Quero usar esse fato para falar sobre por quanto tempo ainda vamos esconder nossa sexualidade. Inclusive em um ambiente só com mulheres! 

Convenhamos, imagina uma festinha só de homens, alguém aparece com um brinquedo sexual. A reação seria a mesma? Por que homens podem assumir que se divertem com sexo e mulheres não?

Por que ainda sentimos vergonha de algo que fazemos, que sentimos, que queremos? Se não fazemos, podemos ter curiosidade e isso remete só ao nosso corpo e nossas escolhas.

Esse evento aconteceu há alguns anos. Aí podemos pensar que agora não é mais assim, né? Dois anos atrás, uma amiga ia fazer uma cirurgia e me disse: “Antes preciso te contar onde guardo meu vibrador, se acontecer algo comigo, promete que você pega antes de algum parente ver”? Não, não mudou! E a cirurgia era no olho, sem anestesia geral. 

Um dia fiz um post na rede social de um estudo que a mulher tem mais áreas de prazer que o homem. Era muito bem explicado. O post teve dois comentários de amigas e todos os outros, uns 10, eram de homens. Uns inclusive claramente duvidando do artigo científico. Mas mulheres não se sentiram confortáveis para falar sobre um poder delas mesmas.  Segundo o artigo, mulher praticamente foi feita para sentir prazer sexual. Por que existe tantas mulheres que nunca tiveram um orgasmo? E por que falar disso é tão evitado?

Alguns anos depois minha amiga mandou uma foto...: “Ainda tenho seu presente. A frigideira não tenho mais”.


Eu tô cansada

 

Ilustração Mani Ceiba

Por Stephany Brito

Venho relutando pra falar disso. De todas as opressões que sinto, essa é a que me sinto mais sozinha. Porque contra o racismo não tem porém, contra o machismo não tem porém, contra o fascismo não tem porém, mas contra a gordofobia sempre surge um. 

“Mas você tem que cuidar da sua saúde”. “Mas gordura em excesso é prejudicial”. “Mas eu só quero o seu bem”. 

Já ouvi isso de pessoas que fumam “que nem uma caipora”; de pessoas que não cuidam do Diabetes; de pessoas que se dizem desconstruídas, mas insistem em falar que “obesidade é doença, você tem que se cuidar”. 

Não nego a propensão a doenças, mas olhar uma pessoa gorda como uma pessoa doente é no mínimo perverso e explicarei por quê:

Quando se encara uma pessoa acima do peso como uma pessoa doente, você coloca nela o peso do estigma. 

Sabe por que a gente não faz atividade física? 

Porque nos é negado esse direito.  Porque nas lojas não tem roupas do nosso tamanho. Porque na academia é inevitável perceber os olhares de julgamento. 

Sabe por que grande parte das pessoas gordas é solitária? 

Porque nossos corpos não são vistos como sensuais. Porque quando a gente encontra as pessoas que em sua maioria a gente conhece pela internet elas usam e vão embora sem ao menos explicar o porquê, mas a gente sabe! No fundo a gente sempre sabe. 

Nós sempre somos vistos como os amigos da galera, e se ousamos, por ventura, sentir prazer, temos nossos sentimentos banalizados. 

Não é só o direito de nos exercitar ou o de ser amada que nos tiram, também é usurpado de nós o direito de ir e vir, o direito de ter um atendimento hospitalar e laboratorial digno com equipamentos que atendam às especificidades dos nossos corpos e médicos que não justifiquem dores de cabeça ou corte no dedo com a frase “você precisa emagrecer”. 

Eu tô cansada de morrer. Eu tô cansada de me sentir inadequada. Eu tô cansada de gente que na minha frente me apoia, mas que “passa pano” pros meus assassinos por trás. Eu tô cansada dos olhares de reprovação e de ter 20 primeiros encontros por ano porque ninguém quer uma segunda vez. Eu tô cansada de chegar a lugares onde as pessoas deduzem que só me alimento de pizza e hambúrguer sendo que tenho uma alimentação saudável. Eu tô cansada de ter minha capacidade negada e meu valor profissional diminuído por que acham que gorda não é capaz de dar uma aula decente. Eu tô cansada de ouvir que as pessoas se preocupam com a minha saúde, mas eu ter que lutar sozinha pra pagar meu plano, pra comprar meus legumes e verduras, pra brigar pelo direito de fazer um preventivo sem sair com um encaminhamento de bariátrica. 

Eu tô cansada de ver amigas gordas maiores chorando de solidão. Eu tô cansada de chorar de solidão. 

Eu morro todo dia e você que tem atitudes gordofóbicas é quem me mata. Todo dia eu morro sozinha e lentamente. E eu tô cansada de morrer! 


Nota de rodapé: gorda maior são pessoas que vestem acima do manequim 58 e que na sociedade não são “passáveis” por não terem um padrão de corpo considerado “bonito, tipo violão”. Essas pessoas, além de terem acesso à moda negado também, tem negados os direitos a acessibilidade, a atendimento médico digno, a emprego, a locomoção decente e etc. 

A sociedade limita até aonde você pode ser gorda e depois disso você é automaticamente tachada como doente.


Januário de Oliveira: a voz de inesquecíveis noites de domingo

 

Ilustração Cacinho

Por João Henrique Barbosa**


Cheguei a Vassouras, de mudança com papai e mamãe, em uma tarde de domingo de 1987 –  23 de agosto, para ser mais preciso. A primeira coisa que fiz na Cidade Histórica foi ligar a Telefunken preto e branco em um canto da casa, improvisar uma antena para fazer funcionar a TV Educativa e acompanhar a final do basquete do Pan de Indianápolis. Oscar e Marcel enfileiravam bolas de três e batemos os Estados Unidos em um jogo inesquecível. 


Na narração, um Januário de Oliveira, bem mais afeito ao futebol, emprestava o seu talento a uma vitória épica daquele que até poucos anos atrás era o segundo esporte do brasileiro. Mais tarde, nos anos 1990, ele se tornaria a voz do futebol carioca na TV, graças às transmissões do Campeonato Estadual na Band. 


Gaúcho do Alegrete como João Saldanha, Januário de Oliveira eu conheci ainda bem menino. Era ele o responsável pelas reprises exibidas na TV Educativa “canal 2, Rio de Janeiro” (como ele frisava nas transmissões) no fim das noites de domingo, em um tempo em que futebol na TV era um luxo. Explico aos mais novos: futebol, salvo partidas decisivas dos campeonatos mais importantes, se acompanhava pelo rádio. Domingo, 17 horas acontecia o principal jogo da rodada. Todo mundo se aboletava em volta do rádio. Fosse uma vitrola na sala ou aparelho menor, no quarto, quando a importância do jogo se resumia aos mais apaixonados. Em tardes de muito calor, os bairros populares viam suas ruas cheias de torcedores apaixonados e seus radinhos de pilha, alguns nem tão “radinhos” assim. 


No Rio daquele tempo, não faltavam craques nas transmissões esportivas pelo rádio: Waldir Amaral e Jorge Curi, na Globo; Doalcei Camargo, na Tupi. Lá em casa, ouvíamos José Carlos Araújo, na Nacional, com Luiz Mendes e Washington Rodrigues nos comentários. Januário de Oliveira narrava jogos menores na mítica Rádio Nacional. Na TVE, no entanto, os clássicos eram dele. E, naqueles anos 1980, o Campeonato Carioca era organizado de um jeito que todo domingo era dia de clássico. Dia de jogão. Claro que, para isso, Bangu e América contavam como times grandes e, tecnicamente, geralmente faziam jus à deferência. 


Domingo tudo parava para ouvir as informações que vinham no Maracanã. Terminado o jogo, não tinha TV a cabo para transmitir as entrevistas – que não eram coletivas e rolavam mesmo dentro dos vestiários, com jogador tomando banho ou coisa parecida. Se fosse dia de vitória do seu time, o lance era esperar os Gols do Fantástico, na Globo, quando o sono já dava as caras. Ou esperar o Globo Esporte na hora do almoço do dia seguinte. Quem estudava de manhã e morava longe da escola já pensava na logística para chegar em casa a tempo de ver a reportagem. E nada de dar aquela chegadinha no banheiro na hora do programa, para não correr o risco de perder – não havia Youtube ou Globoplay para acompanhar depois... 


Neste contexto, a reprise da TV Educativa “Canal 2 Rio de Janeiro” era biscoito fino. Às dez da noite, a TVE nos brindava com esta maravilha: na íntegra, o jogo que três horas antes terminávamos de acompanhar no radinho. Minha admiração por Januário de Oliveira vem deste tempo. Ao lado do comentarista Achilles Chirol ele era a voz que acompanhava as imagens da nossa paixão. Lá em casa, elas ainda eram em preto e branco. Como não sonhávamos com TV a cabo, nem com a possibilidade de assistir a todos os jogos de nossos times, tínhamos a exata noção da importância daquelas reprises. Conversando com os mais velhos, nos sentíamos privilegiados. Afinal, a geração de papai para ver os gols precisava ir aos cinemas, com um delay de semanas ou até meses, sem ter a certeza de que acompanhariam os gols esperados. 


No bairro onde cresci, as reprises de domingo eram uma instituição. Um senhor que morava do outro lado da rua dormia sempre após o almoço. Descansava e fazia questão de estar apagado para não saber o que acontecia no Maracanã, nem mesmo pelas manifestações da vizinhança. Às dez da noite, ele sentava em sua cadeira do papai para acompanhar o clássico como se ao vivo fosse. Costumava ser um lazer divino, mas lembro de uma gaiatice que vez por outra estragava o final de domingo. O jogo rolando e alguém gritava, embaixo da janela: “O Bangu vira no final, gol do Rubens Feijão”. Ele costumava responder com um palavrão, sem esconder o desapontamento. 


Quem cresceu apaixonado por futebol e acompanhando Januário só poderia ficar muito feliz com o sucesso midiático dele nos anos 1990. Suas transmissões inesquecíveis, os termos criados e popularizados em tempo de certa entressafra no futebol carioca. Como tricolor, o carinho só aumentou com a tragédia que acometeria Ezio, o Super Ézio, herói solitário de um Flu enfraquecido, um dos personagens prediletos de Januário (Ézio morreu aos 45 anos, vítima de um câncer). Não faz muito tempo me peguei chorando ao ver o velho narrador em uma matéria linda de Eric Faria – com certeza um jornalista da geração que conheceu Januário nos anos 1990 – no Maracanã, seu palco predileto, ao lado de Valdeir “The Flash”, Sávio “o Anjo Louro da Gávea”, William “Pequeno Polegar”, a viúva e o filho de “Super Ézio”. 


Cansado, adoecido, Januário nos deixou no fim de maio. Com ele se foi um pedaço importante da memória afetiva de uma geração de fluminenses apaixonados pelo esporte mais popular do país. Meninos e meninas que tinham as pupilas dilatadas quando Januário de Oliveira sentenciava: “Taí o que você queria, bola rolando no Maracanã”


O sabor do Saber

                                                                                                                 Fabíola Soares Ferreira  ...