quarta-feira, 16 de junho de 2021

O dia que o vibrador virou um elefante branco na sala

 


Ilustração da nossa convidada especial Carol Cospe Fogo


Por Mani Ceiba

Bom, antes de tudo preciso explicar um pouco como é meu jeitinho de ser e viver para ajudar na visualização dessa história. Eu detesto festas, qualquer uma. Descobri recentemente que até as virtuais podem ser ruins porque não tem a área externa, varanda ou quintal pra fugir de uma conversa chata. Mas voltando, aniversários, velórios, festa de casamento, natal, tudo pra mim é ruim... Na verdade o que eu não gosto é de aglomeração de pessoas. Quando alguém fala “tá lotado, vem!”. Aí que não vou mesmo. Muita gente, muita informação, sou muito sensível a perfumes e as pessoas adoram perfumes e não combinam de usar todas o mesmo!

Sou nascida em família italiana. Sim, a italiana casou com um indígena, e todos falam alto, gesticulam, final de festa todos bêbados falando mais alto ainda, traumatizei? Pode ser... o fato é que é assim! Outra coisa, sou bem comunicativa no trabalho, com as amigas, vez ou outra nas baladas da vida. Quem não me conhece me acha a desinibida e convencida, mas na verdade sou super tímida e insegura quando estou em uma situação em destaque sem trabalho ou defendendo um ideal. Minhas bochechas queimam e meu corpo todo começa a tremer por dentro quando estou em uma situação que para mim é embaraçosa, parece que os órgãos resolveram dançar rumba!

Agora sim, seguimos com minha narrativa. Uma grande amiga... sabe aquela que a gente conheceu na escola e apesar de todas as diferenças que se apresentaram na vida, a amizade seguiu? Então, a felisberta resolveu se casar, com tudo, igreja, vestido, buffet (detesto tudo) e pior, despedida de solteira... Dias insistindo para eu ir, disse que teria muitas bebidas, na época eu era fã de uma bebida que em São Paulo se chama submarino, é tequila que mergulha no chopp, o negócio é econômico, você bebe um e pronto... Diante desses entretenimentos tão sedutores, topei. Só que na minha cabeça, era uma festinha entre mulheres, bebidas, risadas, no final umas e outras sem roupa dançando, ela abriria os presentes, riríamos e fim. Talvez a influência de filmes e séries norte-americanas também tenham colaborado para isso. 

Recebi uma lista de uns presentes que ela gostaria de ganhar, frigideira de cerâmica, cortina antimofo pro banheiro, conjunto de taças... deveria ter desconfiado aí? Deveria! Mas no final desse convite/lista tinha uma opção assim: “Escolha algo que seja especial para a noiva e que acredite que seja único para ela”. Não tive dúvidas, é nesse que vou! Comprei um vibrador! Lindo, grande, que rodopiava. Escrevi na dedicatória algo como: “Depois que casa, o sexo acaba, então será bem mais útil que a frigideira”. 

Escolhi uma roupa para despedida de solteira, na minha cabeça claro, decote, vestido curto e fui com minha caixinha devidamente embrulhada em um papel roxo brilhante. 

Toco a campainha e a porta se abre, uma moça que nunca vi. Entrei, ela pega da minha mão a caixa e coloca em cima de uma mesa cheia de outros presentes, havia umas 15 mulheres mais ou menos... A desconhecida falando sem parar, me segurando pelo braço e aí aparece minha amiga, meio incomodada e me diz: “Ainda bem que você veio, minha mãe trouxe minhas tias e primas e isso aqui tá bem chato”. Sim! Era basicamente uma reunião de família!! Perguntei sobre as bebidas e isso pelo menos estava liberado. 

Em algum momento, a mãe e as tias que pareciam avós falaram como ia funcionar. Ela ia ficar no centro da sala, em cima de uma mesa abrindo os presentes, tinha que tirar da caixa e mostrar! E tinha que adivinhar de quem e o que era e claro, ler o cartãozinho!! Se errasse tinha um castigo. Sinceramente não dei a mínima pra brincadeira, minha única preocupação: “Como sumir com aquele pacote roxo brilhante”!!

Tentei, mas aquela desconhecida da porta parecia um pitbull guardião dos pacotes. Pensei: “Vou fugir antes”. Também não consegui! A brincadeira começou...: “Hum, essa caixa da tia Paula..., deve ser um faqueiro! Ah que texto lindo tia! Essa caixa da tia Joana, copos”!! Felicitações e sobre como ser uma boa mulher casada... Pegaram a caixa roxa brilhante, pensei em ir no banheiro na hora, mas não deu tempo, lembra do submarino? Tava meio devagar já... Ela abriu e todas viram o vibrador! E num silêncio absurdo onde dava pra ouvir meus órgãos tremendo, ela leu o cartão! E todas olharam pra mim, todas! Até a cachorra deitada no tapetinho e acho que até a samambaia pendurada perto da janela! Ela disse com uma cara meio de felicidade meio de desespero: “Esse presente é seu”! Eu respondi “É”! 

Não sei bem o que houve, parecia que todo mundo decidiu fingir que aquilo não aconteceu e fizeram um acordo telepático e continuaram a brincadeira. Mas aquele órgão imenso e rosa  ficou em cima do jogo de taças no canto da mesa...

Climão, ninguém mais falava comigo, eu querendo ir embora e minha amiga falando: “Fica só mais um pouco, ainda não consegui beber e vamos beber”. Fiquei, já tinha muito mais que tequila e cerveja no meu sangue, acho que já estava no modo – que se dane! Tô eu ali sentadinha sozinha, senta uma das tias do meu lado e fala sussurrando: “Eu tenho um desses, só que pequeno. Achei diferente esse”! Levanta e sai... Depois uma prima: “Vai pilha”? Depois outra prima e outra tia. E isso se repetiu escondido no canto da sala algumas vezes e eu olhando o causador do incomodo em cima da mesinha brilhante e orgulhoso. 

Como gosto de sair sempre de festas sem anunciar, decidi ir Mas antes liguei o vibrador e deixei ele rodopiando e saí.

Quero usar esse fato para falar sobre por quanto tempo ainda vamos esconder nossa sexualidade. Inclusive em um ambiente só com mulheres! 

Convenhamos, imagina uma festinha só de homens, alguém aparece com um brinquedo sexual. A reação seria a mesma? Por que homens podem assumir que se divertem com sexo e mulheres não?

Por que ainda sentimos vergonha de algo que fazemos, que sentimos, que queremos? Se não fazemos, podemos ter curiosidade e isso remete só ao nosso corpo e nossas escolhas.

Esse evento aconteceu há alguns anos. Aí podemos pensar que agora não é mais assim, né? Dois anos atrás, uma amiga ia fazer uma cirurgia e me disse: “Antes preciso te contar onde guardo meu vibrador, se acontecer algo comigo, promete que você pega antes de algum parente ver”? Não, não mudou! E a cirurgia era no olho, sem anestesia geral. 

Um dia fiz um post na rede social de um estudo que a mulher tem mais áreas de prazer que o homem. Era muito bem explicado. O post teve dois comentários de amigas e todos os outros, uns 10, eram de homens. Uns inclusive claramente duvidando do artigo científico. Mas mulheres não se sentiram confortáveis para falar sobre um poder delas mesmas.  Segundo o artigo, mulher praticamente foi feita para sentir prazer sexual. Por que existe tantas mulheres que nunca tiveram um orgasmo? E por que falar disso é tão evitado?

Alguns anos depois minha amiga mandou uma foto...: “Ainda tenho seu presente. A frigideira não tenho mais”.


Eu tô cansada

 

Ilustração Mani Ceiba

Por Stephany Brito

Venho relutando pra falar disso. De todas as opressões que sinto, essa é a que me sinto mais sozinha. Porque contra o racismo não tem porém, contra o machismo não tem porém, contra o fascismo não tem porém, mas contra a gordofobia sempre surge um. 

“Mas você tem que cuidar da sua saúde”. “Mas gordura em excesso é prejudicial”. “Mas eu só quero o seu bem”. 

Já ouvi isso de pessoas que fumam “que nem uma caipora”; de pessoas que não cuidam do Diabetes; de pessoas que se dizem desconstruídas, mas insistem em falar que “obesidade é doença, você tem que se cuidar”. 

Não nego a propensão a doenças, mas olhar uma pessoa gorda como uma pessoa doente é no mínimo perverso e explicarei por quê:

Quando se encara uma pessoa acima do peso como uma pessoa doente, você coloca nela o peso do estigma. 

Sabe por que a gente não faz atividade física? 

Porque nos é negado esse direito.  Porque nas lojas não tem roupas do nosso tamanho. Porque na academia é inevitável perceber os olhares de julgamento. 

Sabe por que grande parte das pessoas gordas é solitária? 

Porque nossos corpos não são vistos como sensuais. Porque quando a gente encontra as pessoas que em sua maioria a gente conhece pela internet elas usam e vão embora sem ao menos explicar o porquê, mas a gente sabe! No fundo a gente sempre sabe. 

Nós sempre somos vistos como os amigos da galera, e se ousamos, por ventura, sentir prazer, temos nossos sentimentos banalizados. 

Não é só o direito de nos exercitar ou o de ser amada que nos tiram, também é usurpado de nós o direito de ir e vir, o direito de ter um atendimento hospitalar e laboratorial digno com equipamentos que atendam às especificidades dos nossos corpos e médicos que não justifiquem dores de cabeça ou corte no dedo com a frase “você precisa emagrecer”. 

Eu tô cansada de morrer. Eu tô cansada de me sentir inadequada. Eu tô cansada de gente que na minha frente me apoia, mas que “passa pano” pros meus assassinos por trás. Eu tô cansada dos olhares de reprovação e de ter 20 primeiros encontros por ano porque ninguém quer uma segunda vez. Eu tô cansada de chegar a lugares onde as pessoas deduzem que só me alimento de pizza e hambúrguer sendo que tenho uma alimentação saudável. Eu tô cansada de ter minha capacidade negada e meu valor profissional diminuído por que acham que gorda não é capaz de dar uma aula decente. Eu tô cansada de ouvir que as pessoas se preocupam com a minha saúde, mas eu ter que lutar sozinha pra pagar meu plano, pra comprar meus legumes e verduras, pra brigar pelo direito de fazer um preventivo sem sair com um encaminhamento de bariátrica. 

Eu tô cansada de ver amigas gordas maiores chorando de solidão. Eu tô cansada de chorar de solidão. 

Eu morro todo dia e você que tem atitudes gordofóbicas é quem me mata. Todo dia eu morro sozinha e lentamente. E eu tô cansada de morrer! 


Nota de rodapé: gorda maior são pessoas que vestem acima do manequim 58 e que na sociedade não são “passáveis” por não terem um padrão de corpo considerado “bonito, tipo violão”. Essas pessoas, além de terem acesso à moda negado também, tem negados os direitos a acessibilidade, a atendimento médico digno, a emprego, a locomoção decente e etc. 

A sociedade limita até aonde você pode ser gorda e depois disso você é automaticamente tachada como doente.


Januário de Oliveira: a voz de inesquecíveis noites de domingo

 

Ilustração Cacinho

Por João Henrique Barbosa**


Cheguei a Vassouras, de mudança com papai e mamãe, em uma tarde de domingo de 1987 –  23 de agosto, para ser mais preciso. A primeira coisa que fiz na Cidade Histórica foi ligar a Telefunken preto e branco em um canto da casa, improvisar uma antena para fazer funcionar a TV Educativa e acompanhar a final do basquete do Pan de Indianápolis. Oscar e Marcel enfileiravam bolas de três e batemos os Estados Unidos em um jogo inesquecível. 


Na narração, um Januário de Oliveira, bem mais afeito ao futebol, emprestava o seu talento a uma vitória épica daquele que até poucos anos atrás era o segundo esporte do brasileiro. Mais tarde, nos anos 1990, ele se tornaria a voz do futebol carioca na TV, graças às transmissões do Campeonato Estadual na Band. 


Gaúcho do Alegrete como João Saldanha, Januário de Oliveira eu conheci ainda bem menino. Era ele o responsável pelas reprises exibidas na TV Educativa “canal 2, Rio de Janeiro” (como ele frisava nas transmissões) no fim das noites de domingo, em um tempo em que futebol na TV era um luxo. Explico aos mais novos: futebol, salvo partidas decisivas dos campeonatos mais importantes, se acompanhava pelo rádio. Domingo, 17 horas acontecia o principal jogo da rodada. Todo mundo se aboletava em volta do rádio. Fosse uma vitrola na sala ou aparelho menor, no quarto, quando a importância do jogo se resumia aos mais apaixonados. Em tardes de muito calor, os bairros populares viam suas ruas cheias de torcedores apaixonados e seus radinhos de pilha, alguns nem tão “radinhos” assim. 


No Rio daquele tempo, não faltavam craques nas transmissões esportivas pelo rádio: Waldir Amaral e Jorge Curi, na Globo; Doalcei Camargo, na Tupi. Lá em casa, ouvíamos José Carlos Araújo, na Nacional, com Luiz Mendes e Washington Rodrigues nos comentários. Januário de Oliveira narrava jogos menores na mítica Rádio Nacional. Na TVE, no entanto, os clássicos eram dele. E, naqueles anos 1980, o Campeonato Carioca era organizado de um jeito que todo domingo era dia de clássico. Dia de jogão. Claro que, para isso, Bangu e América contavam como times grandes e, tecnicamente, geralmente faziam jus à deferência. 


Domingo tudo parava para ouvir as informações que vinham no Maracanã. Terminado o jogo, não tinha TV a cabo para transmitir as entrevistas – que não eram coletivas e rolavam mesmo dentro dos vestiários, com jogador tomando banho ou coisa parecida. Se fosse dia de vitória do seu time, o lance era esperar os Gols do Fantástico, na Globo, quando o sono já dava as caras. Ou esperar o Globo Esporte na hora do almoço do dia seguinte. Quem estudava de manhã e morava longe da escola já pensava na logística para chegar em casa a tempo de ver a reportagem. E nada de dar aquela chegadinha no banheiro na hora do programa, para não correr o risco de perder – não havia Youtube ou Globoplay para acompanhar depois... 


Neste contexto, a reprise da TV Educativa “Canal 2 Rio de Janeiro” era biscoito fino. Às dez da noite, a TVE nos brindava com esta maravilha: na íntegra, o jogo que três horas antes terminávamos de acompanhar no radinho. Minha admiração por Januário de Oliveira vem deste tempo. Ao lado do comentarista Achilles Chirol ele era a voz que acompanhava as imagens da nossa paixão. Lá em casa, elas ainda eram em preto e branco. Como não sonhávamos com TV a cabo, nem com a possibilidade de assistir a todos os jogos de nossos times, tínhamos a exata noção da importância daquelas reprises. Conversando com os mais velhos, nos sentíamos privilegiados. Afinal, a geração de papai para ver os gols precisava ir aos cinemas, com um delay de semanas ou até meses, sem ter a certeza de que acompanhariam os gols esperados. 


No bairro onde cresci, as reprises de domingo eram uma instituição. Um senhor que morava do outro lado da rua dormia sempre após o almoço. Descansava e fazia questão de estar apagado para não saber o que acontecia no Maracanã, nem mesmo pelas manifestações da vizinhança. Às dez da noite, ele sentava em sua cadeira do papai para acompanhar o clássico como se ao vivo fosse. Costumava ser um lazer divino, mas lembro de uma gaiatice que vez por outra estragava o final de domingo. O jogo rolando e alguém gritava, embaixo da janela: “O Bangu vira no final, gol do Rubens Feijão”. Ele costumava responder com um palavrão, sem esconder o desapontamento. 


Quem cresceu apaixonado por futebol e acompanhando Januário só poderia ficar muito feliz com o sucesso midiático dele nos anos 1990. Suas transmissões inesquecíveis, os termos criados e popularizados em tempo de certa entressafra no futebol carioca. Como tricolor, o carinho só aumentou com a tragédia que acometeria Ezio, o Super Ézio, herói solitário de um Flu enfraquecido, um dos personagens prediletos de Januário (Ézio morreu aos 45 anos, vítima de um câncer). Não faz muito tempo me peguei chorando ao ver o velho narrador em uma matéria linda de Eric Faria – com certeza um jornalista da geração que conheceu Januário nos anos 1990 – no Maracanã, seu palco predileto, ao lado de Valdeir “The Flash”, Sávio “o Anjo Louro da Gávea”, William “Pequeno Polegar”, a viúva e o filho de “Super Ézio”. 


Cansado, adoecido, Januário nos deixou no fim de maio. Com ele se foi um pedaço importante da memória afetiva de uma geração de fluminenses apaixonados pelo esporte mais popular do país. Meninos e meninas que tinham as pupilas dilatadas quando Januário de Oliveira sentenciava: “Taí o que você queria, bola rolando no Maracanã”


terça-feira, 1 de junho de 2021

O Potente Som Patente de Nelson: contra as Patentes, da CPI e da Vacina, eu vou pra Rua sambar!

 

Ilustração Cacinho


POR  VILA-ACENDEAMOR


“Todos nós estamos um pouquinho tristes por não ter desfile, mas foi melhor assim. Temos que estar todos vacinados para fazermos um grande carnaval em 2022” (Nelson Sargento, 12 de fevereiro de 2021, ao tomar a segunda dose da vacina).

Nelson não partiu. Não. Encantou-se em “Sinfonia Imortal”.

Como diria Luiz Antônio Simas, é no encantamento que surge o lenitivo pra seguir adiante. Contra as patentes das autoridades de plantão e as patentes das corporações de saúde, Sargento nos diz: “Alto, lá!”

“Sargento” foi a patente mais alta que desempenhou, segundo o Exército do Brasil.

No Palácio de Duque de Caxias, porém, o Nelson Mattos era o Coronel-Baluarte da Estação Primeira. A patente de Presidente de Honra sequer faz jus à Casa de Angenor.

Em razão da idade avançada, nem mesmo a segunda dose da vacina (tomada no último fevereiro) o salvou da foice da Indesejada das Gentes. Vacina não é dose de imortalidade. Que fique claro: é algo que ajuda a nossa saúde a combater o vírus — e as variantes —que aí estão a ameaçar nossas vidas.

O potente Som-Patente de Nelson nos leva além da última letra conhecida pela ciência. Polímata de todas as sabenças e saberes do Carnaval, Nelson diz o que todo suposto General deveria dizer a uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

A declaração do Cidadão Sargento vale mais que muita desculpa de ocupante do Alvorada, ou que muito silêncio de ex-titular da Pasta da Saúde.

Nelson, ainda que em tom eufêmico, disse um pouco de toda a tristeza que, em razão da pandemia, também se abate sobre nós. Não bastassem as quase 455 mil vidas brasileiras que se despediram neste décimo quarto mês pandêmico, este primeiro ano sem Carnaval é difícil de engolir.

É um pouco das “vicissitudes” da nossa cultura que escorre pelos dedos. Em fevereiro de 2022? O Carnaval chegará...

Mas, pelo andar das declarações e, sobretudo, dos silêncios, a fala de Nelson tende, mesmo daqui a 9 meses, a calar fundo em nosso povo.

A maioria da população brasileira seguirá, até lá, sem vacina. Todos nós, uma vez mais — e pelo segundo ano consecutivo — sem Carnaval.

Em meio a essa “Sapucaí de Genocídios”, o nosso Samba “agoniza, mas não morre”!

No último sábado, 29 de maio de 2021, houve convocação geral para, civicamente, contestarmos a irresponsabilidade que aí está. Pelas ruas e avenidas no país, esse ainda é o grito entalado na garganta!

Recuso-me a, enquanto cidadão, discutir supostas prévias e estatísticas eleitorais, enquanto o Capitão da Morte seguir no poder.

Se não concorda comigo? Seja bem-vinde, seja bem-vinda, seja bem-vindo ao debate.

Não ficarei parado vendo gente que tem medo de debate e de prestar contas ao país dando uma de Che.

Respeitem os nossos revolucionários “Diários de Motocicleta”!

A última quinta, 27, foi um dia triste. Impossível negar isso. A Velha Guarda perdeu mais uma Gigante Verde-e-Rosa no seu Panteão.

Com a ironia que sempre poetizou o ritmo patente que alegra a alma, em vez dos chistes e chiliques da tal CPI, prefiro a Bela Companhia de meu “Parceiro de Ilusão”. Canta Sargento:


“Estou cansado de tanta mentira

Não dá mais pra segurar

Eu posso até sacrificar

A minha lira

Porém dos meus versos

Eu não vou abdicar


As vicissitudes dessa vida

Vão levando tudo de roldão

Não sou escravo nem senhor de causas perdidas

Nem parceiro da ilusão


Só encontro falsidade

Vou roendo dia-a-dia

A boca que eu beijava era a mesma que mentia

Tapar com o sol brilhante com a peneira da traição

É o modo mais constante

De fingir pro coração


Em busca da verdade

Tropecei na ingratidão

Meus versos são meu jeito de beber

Na emoção


Não há sinceridade

No olhar de um trapaceiro

Até na falsidade é melhor ser verdadeiro” 

(“Parceiro da Ilusão”, do Cidadão-Poeta Nelson Mattos, a lira de nosso Artista Sargento-Nelson).


No Céu, ouve-se a “Sinfonia Eterna”, de Nelson Sargento, brilha Presidente Eterno da minha Primeira Estação.

No último Sábado, fui com minha Máscara PFF-2 desfilar pelo direito de que a dita “Praça dos Três Poderes” volte a ser “DO POVO”!

Esse meu manifesto, “inocente, pé-no-chão”, é uma homenagem imorredoura ao “Hino dos Sambistas”, que nos atravessa, sem jamais ser atravessado:


“Samba,

Inocente, pé-no-chão,

A fidalguia do salão,

Te abraçou, te envolveu,

Mudaram toda a sua estrutura,

Te impuseram outra cultura,

E você não percebeu,

Mudaram toda a sua estrutura,

Te impuseram outra cultura,

E você não percebeu.


Samba,

Agoniza mas não morre,

Alguém sempre te socorre,

Antes do suspiro derradeiro.

Samba,

Negro, forte, destemido,

Foi duramente perseguido,

Na esquina, no botequim, no terreiro.”


Nesse enredo de ilusões-reais e de falsas-autoridades, “só a arte salva!”

De volta às ruas e às avenidas da vida, meu povo, a melhor imunização é a carnavalesca!

Contra as “Patentes”, da CPI e da Vacina, eu vou pra rua sambar, meu Presidente Sargento!

Levem sempre suas Máscaras!!! O Show tem de continuar!!!

domingo, 30 de maio de 2021

Do Sumaré ao Ipiranga: uma conversa sobre mudança de rumos

Imagem Mani Ceiba


 Por Luís Filipe Pereira


“Você vai pela Consolação, e depois pegar a Radial Leste?”, perguntei, querendo encontrar uma alternativa. Saindo da região da Doutor Arnaldo até o Ipiranga, no começo da noite, levaria aproximadamente uma hora. “Não… O aplicativo está me mandando atravessar a Paulista inteira, e ir por dentro da Vila Mariana. Tudo bem por você?”, perguntou o motorista. Aceitei e falamos brevemente sobre o trânsito. Em ponto morto, a conversa passou pela expectativa da vacina, a crise econômica provocada pela pandemia, falta de oportunidades, e - como esperado - chegou até a influência do Desgoverno Federal para o atual estado das coisas. “Acho que a culpa disso tudo é do presidente”, lancei, já pensando em reunir argumentos para uma tréplica. É comum em situações como essa ouvir como resposta um “Ah, mas a imprensa fala muita mentira” ou ainda “O problema dele é que é muito sincero, não tem meias palavras, as pessoas não entendem”. 


Mas não. Na fria noite de 20 de maio de 2021, o motorista de aplicativo concordou comigo. Incrédulo, ouvi um “Eu sinceramente espero que essa CPI dê em alguma coisa”. O carro agora passava em frente ao Masp. Até a Bernardino de Campos, já no Paraíso, meu interlocutor criticou a falta de articulação política para que a vacina fosse viabilizada mais cedo. “Se ele tem uma opinião pessoal contrária, era preferível ficar quieto. Xingar o Dória e xingar a China só atrapalha. Tem muita gente morrendo todo dia, perdendo a vida para uma doença que já tem vacina”. E foi emendando um argumento no outro. Reclamou da relação do clã Bolsonaro com o poder e de promessas de campanhas que não foram cumpridas, como gás e outros combustíveis baratos. Passávamos em frente ao prédio da Fiesp e, entre um farol vermelho e outro, como dizem os paulistanos, agora tanto fazia se o trânsito aumentava ou diminuía. A conversa estava boa e isso bastava. 


Reginaldo contava que havia optado pelo voto em Bolsonaro em 2018 e estava arrependido. Dizia ainda que, desde o início da pandemia, tinha se esforçado para deixar clara sua posição aos passageiros que entram no carro e conversam sobre política. Segundo ele, não há qualquer problema em rever posições e opiniões políticas. Pelo contrário, é algo simples. “Eu sou da opinião de que temos sempre que dar espaço para o novo, chance para que as pessoas que nunca estiveram no poder sejam eleitas. No caso do Bolsonaro, eu falo para você, com sinceridade, que foi uma escolha errada. De algum jeito ele trazia uma mensagem de renovação, mas era só propaganda. Agora precisamos de outra pessoa”. E nessa lógica, depois de se arrepender de escolher o candidato da arminha nas eleições presidenciais, nosso camarada votou em Guilherme Boulos para a Prefeitura de São Paulo. “Não deu, né? Ele sofreu muito com fake news. Quando ouvi aquele monte de coisa, das pessoas dizendo que ele ia autorizar invasão nos imóveis, não acreditei. E era tudo mentira mesmo, mas tem gente que acredita, infelizmente. Eu moro na periferia, região Oeste, e sei que a gente precisa de políticos que olhem para o nosso lugar. Aqui no Centro as coisas estão resolvidas, encaminhadas. Vai na quebrada para você ver, é muito problema. Vamos ver se ele se candidata a governador ano que vem”. 


Nas proximidades do Largo da Ana Rosa, enquanto um ciclista passava ao lado do carro, Reginaldo se lembrou da gestão de Fernando Haddad. “O que pegou para ele foi o ódio que as pessoas passaram a ter pelo PT. Mas fez um governo justo, a cidade ganhou muita ciclofaixa, ciclovia. Era até estranho porque eu ia para o interior e via tudo isso, e pensava, me perguntava quando que São Paulo poderia ter esse tipo de coisa”. No restante do trajeto, pouco mais de 20 minutos, até a Rua Bom Pastor, abstraí meu pensamento. Entre uma fala e outra, que enaltecia o voto consciente e o poder transformador da Educação, fui me enchendo de esperança. Ao fim dos pouco mais de 50 minutos de conversa, agradeci pelo papo. Saí do carro, percebi a garoa fraca e respirei fundo. Que assim seja, Reginaldo!

sexta-feira, 14 de maio de 2021

BLUES

 Por Leandro Souto Maior



“Os jovens ingleses conseguem aprender a tocar guitarra do seu jeito, mas conseguem aprender a cantar como você?” 

“Você diz jovens brancos? Oh não, você sabe disso melhor do que eu... Eles não têm a alma, nunca passaram por tempos difíceis.” 

O diálogo acima foi protagonizado pelo cantor, compositor e guitarrista norte-americano Muddy Waters, um grande bluesman (músico de blues) cuja poderosa influência na música é sentida até hoje. 

A palavra “blues”, antes de servir para denominar um gênero musical, era usada para definir um estado de espírito, com o sentido de tristeza. E esse novo gênero musical surgido nos Estados Unidos, no início do século XX, era uma expressão das vidas do povo negro levado para lá como escravo, que morava e trabalhava nas plantações. Era a música cantada em trabalhos coletivos, como colheita de algodão ou obras em ferrovias. Então, apesar de ter surgido nos Estados Unidos, o blues foi criado por esses africanos, vindos de regiões onde atualmente são países como Senegal, Gana ou Congo, por exemplo. 

Os “jovens brancos” aos quais Muddy Waters se refere seriam artistas como Eric Clapton e os Rolling Stones. Pois foi o interesse pelo blues negro na Inglaterra branca que estabeleceu as bases da revolução do rock nos anos 1960. Quando Muddy Waters tocou guitarra elétrica na Inglaterra em 1958, os músicos mais novos logo foram atraídos pelo instrumento eletrificado. Daí em diante, grupos de blues começaram pipocar por lá, como o Cream, com Eric Clapton, e os Rolling Stones, com Mick Jagger, cantando num estilo dos vocalistas negros norte-americanos. Para Muddy Waters, porém, eles seriam incapazes de conseguir a intensidade emocional do blues original negro, a autenticidade daqueles descendentes de africanos com quem a verdade musical americana começou, um canto de liberdade na senzala da casa grande. 

O mais legendário bluesman, Robert Johnson, define em seu clássico “Walking blues”: “Alguns lhe dirão que este blues atormentado é tão terrível/Mas é o pior sentimento que um homem pode jamais experimentar”. 

E em cada fazenda surgiam músicos, cantores e tocadores de violão. Alguns seguiram em frente e se tornaram lendas. Felizmente, muitos desses músicos pioneiros foram descobertos por olheiros de gravadoras, e a maioria desses discos raros de 78 rotações foi relançada ao longo do tempo por colecionadores em pequenos selos, Assim, para nossa sorte, ainda é possível apreciar hoje essa notável música  de nomes como Buddy Guy, B. B. King, Albert King, Freddie King, John Lee Hooker, Howling Wolf, T. Bone Walker, Bukka White, Lightnin’ Hopkins, Big Bill Broonzy, Leadbelly, Charley Patton, além dos já citados Muddy Waters e Robert Johnson.


domingo, 9 de maio de 2021

XVII de Novembro

 Descubro pela TV, acompanhando o noticiário esportivo, que nesta semana o Vasco jogou por alguns minutos com doze jogadores contra o Tombense, pela Copa do Brasil. Marquinhos Gabriel, substituido pelo técnico Marcelo Cabo, simplesmente ficou em campo depois que o substituto entrara. Até que resolveu sair, sendo premiado  com um cartão amarelo pelo árbitro da partida. 

O lance pitoresco aconteceu no simpático estádio de Tombos, o pequenino município mineiro que pela proximidade do território fluminense – e pela legião de cruzmaltinos apinhados em uma casa em construção, muito justamente dispersada pela nem sempre justa polícia mineira – parece guardar muito mais relação, ao menos cultural e esportiva, com o Rio que com Belo Horizonte. 

Não vi o jogo. Por mais que ele pudesse chamar a minha atenção. Estádio a moda antiga, raiz como gostam de dizer nos dias de hoje, bem diferentes das arenas globalizadas que pululam mundo afora. Tu olha o estádio e mesmo sem ter ido uma só vez a Tombos, mesmo sem ser um observador costumeiro do futebol mineiro, aposta: é o campo da Tombense.

Mas a menção ao time com doze em campo me levou a uma outra época, bem mais perto de casa. Estádio Paulo Fernandes, Barra do Piraí. Campo do Royal Sport Club, o Tricolor da Colina. Anos 1960. Como eu só nasceria quase uma década depois, o relato me foi passado por papai. Seo Zé Carlos nasceu em Barra e sempre se dividiu entre a cidade natal e a vizinha Vassouras. O que o transformou em uma espécie de Roberto Leal. Para muitos em Vassouras, ele era de Barra. Para tantos barrenses, de Vassouras.

Vale um parênteses. Nos anos 1960, o futebol seguia amador no estado do Rio de Janeiro, que ainda não se fundira com a Guanabara. Só times de Niterói, o mais famoso de todos o Canto do Rio, se aventuravam a enfrentar os clubes tradicionais do antigo DF. Aqui pelo antigo estado do Rio algumas cidades se destacavam. Três Rios de América e Entrerriense. Campos de Americano e Goytacaz. O Leão do Sul era o orgulho de Barra Mansa. Em Volta Redonda, o Guarani (seria do Rústico?) era o mais falado – o Volta Redonda FC  seria criado pela vontade do regime, em 1976, para distrair o operariado da Cidade do Aço. O Resende já existia – mas não lembro de papai falando do Gigante do Vale.

Em Vassouras, o agora quase centenário Fluminense dividia atenções com o Vassourense, de camisas azuis e brancas muito parecidas com a do São José, o Zequinha de Porto Alegre, e o XV de Novembro, o clube verde e amarelo criado na suburbana Residência pelos funcionários do Departamento de Estradas de Rodagem do Rio de Janeiro, que instalara ali a sua Segunda Residência, que daria nome a um dos bairros mais populosos da Cidade Histórica. Talvez vassourenses mais antigos fiquem chateados, mas nenhum dos três ombreava com os vizinhos já citados.

Royal Sport Club

Royal e Central eram gigantes. Royal, como o nome sugere, nascera da burguesia barrense e de torcedores aficcionados pelo Fluminense. Não por acaso sua camisa é idêntica a do clube de Álvaro Chaves. Já o Central, os mais velhos já ligaram os pontos, surge como extensão das casas dos ferroviários da antiga estrada de ferro Central do Brasil. Virei gente em uma Barra do Piraí que ainda se dividia entre seus clubes tradicionais. Garoto, escolhi o Royal por conta do amor já declarado ao Tricolor carioca. Papai, que não lera Marx mas sempre vivera de salário, fosse em farmácias, na Companhia Industrial de Papel Pirahy ou como vendedor de produtos farmacêuticos, optara pelo Central. Mas não movera uma palha para tirar o meu encanto pelo tricolor. O de Barra. Porque o do Rio ele amava desde Castilho, Píndaro e Pinheiro...

Então aquele Paulo Fernandes da memória de papai sempre me foi muito próximo. Talvez minha primeira vez no estádio tenha sido com mamãe, em um festival do sorvete que uma foto do início dos anos 1970 não me deixa esquecer – ela linda, nova, com calça boca de sino. E eu feliz demais em meio a tanta guloseima. A primeira vez que vi o Flu de perto foi ali também, quando o Tricolor ensaiava montar o esquadrão tricampeão carioca e campeão brasileiro dos anos 1980. Ainda não havia Assis, Washington e Romerito, mas lembro bem o barulho de um chute de Duílio na trave do gol à direita das cabines de rádio. Vi também o estádio tomado, com as torcidas separadas pela PM, em decisões do campeonato barrense. Em campo, craques como Vermuth e Mão Branca.

Mais tarde voltei ao estádio pela Rádio Barra do Piraí para cobrir partidas de um campeonato esvaziado, com times de bairro que nem em seus melhores momentos poderiam fazer a gente pensar em um Royal e Central. 

Mas o que isso tem a ver com o Tombense e Vasco desta Copa do Brasil? Papai me contou que certo dia soube que o Royal preparava uma partida para reinaugurar a iluminação do estádio da Colina. O jogo, claro, aconteceria à noite, em um dia de semana. O adversário seria o brioso Esporte Clube XV de Novembro com suas camisas amarelas. O Velho, um garoto à época (dia desses eu descobri que o Velho na verdade nunca fora velho, mas isso é uma outra estória), foi ao Paulo Fernandes com os amigos roialinos. E o Royal, que empatara em amistosos com times da Guanabara e até servira de sparring para a seleção brasileira em preparação para a Copa de 1966, resolveu não tomar conhecimento do visitante da cidade vizinha.

E desandou a marcar gols. Fez um, dois, três, oito. Nove, doze... Lá pelas tantas o técnico vassourense resolveu mexer. Um reserva entrou. O titular  não quis sair. O árbitro não se importou. Os adversários também não. E o massacre seguiu: treze, catorze, quinze. Dezessete. Não sei se a zero ou a coisa parecida. E o pai, centralino para uns, vassourense para outros, teve de aturar a galhofa tricolor. “Zezeca, o time agora mudou de nome. XVII de Novembro”. 

Central Sport Club


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*Texto originalmente produzido em 8/4/2021

**João Henrique Barbosa é jornalista, historiador, filho de José Carlos Barbosa e ouvinte atento de seus causos. Os fatos podem não ter acontecido exatamente assim. Seriam frutos da memória do Velho ou das lembranças desse pobre escriba já às portas do cinquentenário. Uma homenagem à memória de Central e Royal (e a XV, Vassourense, Fluminense de Vassouras, Entrerriense...) transformados em quase nada em tempos de futebol globalizado.

sábado, 3 de abril de 2021

Como a pólvora já existia, podemos acender esse pavio desde 1500

 


Chegando aqui se depararam com os donos da casa. Lindos, cor de melado, adornados com o que a natureza dava, livres e com suas organizações sociais e religiosas em perfeita harmonia com o ambiente. Não diferente dos brancos guerreavam, mas com princípios e intenções bem distintas. 
Rezavam e tinham suas crenças como os brancos. Explicavam o nascer do sol, a existência das estrelas e o barulho do trovão através de mitos com muita riqueza, beleza e arte. Por isso, talvez também tenham sido tão ridicularizados, já que Narciso acha feio o que não é espelho, e a inveja por tanta poesia tenha colocado mais lenha na fogueira.
Na primeira carta, dizia – “são inocentes, bons e de bela simplicidade”, isso nas palavras do tal de Pero. No entanto, na busca de motivos legitimadores para o poder e a dominação, nas terras Brasilis os nativos viraram bárbaros ferozes comedores de homens. Assim também evitavam que outras nações navegantes viessem descobrir o paraíso. Não adiantou muito não, uns franceses vieram e não é que fizeram amizade...


AH ESSES SELVAGENS


Um meio de divulgar eram as ilustrações que circulavam na Europa e imagens de canibalismo para representar os nativos Brasilis era a fofoca da corte.
Em 1505, um alemão quis desenhar e escrever em texto esse povo tão ofensivo – “ Pessoas que andam nuas, com uma cor de pele avermelhada, não são possuidores de nada, porque a propriedade é de todos e não possuem governos”

AH ESSES SELVAGENS

Isso foi em 1500! Muita coisa mudou, o homem branco aprendeu a respeitar as diferenças. Será? 
Na ditadura militar, desde o plano de integração nacional em 1964 até 1985 foram massacrados 8350 indígenas, segundo a Comissão da Verdade. Detalhes como roubos de terras, prisões, torturas, espancamentos, envenenamentos, brinquedos doados para crianças contaminados com vírus de sarampo e varíola e estupros fazem parte dos relatos. 
Em 1969, foi criado um reformatório. Com o pretexto de que o governo estava preocupado com a situação dos indígenas e daria apoio e assistência, o governo criou um local de punição, repressão e controle dos nativos que estavam resistindo ao avanço latifundiário. Os indígenas eram proibidos de falar sua língua, havia solitárias, equipamentos de torturas e relatos de afogamentos, pauladas e enforcamentos. Esse reformatório fechou em 1971, porém os “prisioneiros” foram levados a outro local para trabalhos forçados como prisão rural regulada pela ditadura.

AH ESSES SELVAGENS

Esse pavio é detonado até hoje. Assistidos de forma precária pelo governo atual, as crescentes invasões, os garimpos ilegais em seus territórios, as comunidades indígenas enfrentam, quase que sozinhas, o avanço da PANDEMIA do corona vírus.
Na briga há muitos guerreiros com a pele avermelhada e tinta no rosto, mas também os sem pintura, com roupas, os diplomados, os com cocar... todos se juntam em frentes de defesa dos Povos Indígenas para lutar. E a luta não acaba nunca. Talvez depois que todos morrerem...

AH ESSES SELVAGENS

O MINISTRO QUE (NÃO) SABIA JAVANÊS

 


Publicado na Gazeta da Tarde em 1911, O homem que sabia javanês apresenta um pouco do oportunismo baseado no improviso, traço marcante do conhecido ‘jeitinho brasileiro’ desde sempre. De autoria de Lima Barreto, o conto descreve a aventura de Castelo, personagem fictício descrito de forma caricatural, que se tornou professor de javanês sem ter conhecimento algum do idioma. A obra abre uma discussão sobre ética e questiona a legitimidade de carreiras construídas a partir de bases pouco sólidas, algo que já havia descrito em obras como na sátira Os bruzundangas, em que relata as mazelas de uma república cuja organização política e estrutura social eram bem próximos do que o Brasil experimentava no começo do século 20.
“Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Commercio o anúncio […] Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes[…] Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro e andando de bonde, sem encontros desagradáveis com os “cadáveres””, explica Castelo ao amigo Castro logo no início da obra.
O termo cadáver pode se referir a uma alusão aos encarregados dos aluguéis dos quartos de pensão. No Brasil pós-covid 19, os cadáveres, no entanto, são reais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o número de mortos ultrapassa 277 mil e o número de casos notificados ultrapassa a marca de 10 milhões.
Antes de descrever todos os pormenores de sua saga como professor de javanês, Castelo revela que, em outra ocasião trabalhara como adivinho, e chegara a omitir que era bacharel para obter maior confiança entre os clientes que o procuravam. Segundo ele, tudo isso são “partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades para poder viver”. Quando o general-de-divisão Eduardo Pazuello, atual ministro da Saúde, assumiu o posto substituindo Nelson Teich, 15 mil pessoas já haviam perdido a vida para o novo coronavírus. Na ocasião, ele admitiu ter conhecimento de leigo na saúde, conforme entrevista ao site da revista Veja, em 21 de abril de 2020, e defendia um cuidado maior do governo federal para com os dados da pandemia:
“O meu grau de conhecimento específico, técnico, de médico, é leigo. A gente observa que dados precisam ser melhorados, a gente precisa ter números mais fidedignos, com menos risco de manipulação, para que se definam as estratégias em cima de dados reais. Se você não tiver certeza absoluta dos dados, tudo o que você planejar não tem resultado”, disse ele.
Como é de conhecimento público, o número de mortes subiu de maneira alarmante e a falta de conhecimento na área de saúde pode ter, de certa forma, agravado o problema. No auge da pandemia, no início da segunda metade do mandato do capitão Jair Bolsonaro, e a quatro meses de completar um ano à frente da pasta, Pazuello protagonizou um boicote à vacina, participando de pelo menos uma live em redes sociais com o mandatário, endossando impropérios quanto à eficácia da imunização. Assim como o presidente, o ministro também defende o uso de medicamentos como a cloroquina e ivermectina para evitar o agravamento de pessoas contagiadas pelo coronavírus, na contramão do que é preconizado pela Organização Mundial da Saúde.

A falta de conhecimento técnico e artimanhas também caminham juntos em O homem que sabia javanês. Em uma sociedade guiada por valores positivistas e resquícios da monarquia, o autor usa de ironia para denunciar a falta de organização política, muitas vezes orquestrada por pessoas que destilavam sua influência por meio de um saber artificial. No caso de Castelo, a pretensa carreira de professor de javanês rendeu uma indicação para trabalhar no Ministério das Relações Exteriores. Com seu jeito aberto e sem qualquer escrúpulo em mentir, passa a desenvolver boa relação com o aluno, um barão já idoso que o havia contratado para traduzir uma obra escrita neste idioma, deixada como herança pelo avô e de grande valor afetivo.
“Fui perdendo os remorsos; mas, em todo caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. “Qual!” retrucava ele. “Vá, menino; você sabe javanês!”. Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso”.
Quanto ao ministro do capitão, a experiência e conhecimento em logística obtido em anos no Exército — segundo reportagem do site Congresso em Foco, Pazuello não possui especialização acadêmica na área — pouco tem valido para amenizar o caos social imposto pela pandemia do novo coronavírus. Com a pandemia se agravando na região Norte, visitou Manaus para recomendar e disseminar o uso da cloroquina para conter a doença. Dias depois, a capital amazonense, cujo sistema de saúde já havia enfrentado sérios problemas em abril de 2020, no início da pandemia, viveu nova tragédia com o fim do estoque de oxigênio nos hospitais e a morte de pacientes por asfixia, o que rendeu a abertura de uma investigação pela Procuradoria Geral da República. O objetivo é apurar a conduta do ministro em relação a possíveis medidas que poderiam ter sido tomadas para evitar a falta de oxigênio e o colapso nos hospitais. Em conversas reservadas, ministros do Superior Tribunal Federal (STF) defendem sua responsabilização criminal.
Fato é que Pazuello admitiu que soube da possibilidade de falta de oxigênio pelo menos uma semana antes do dia mais grave de mortes por asfixia em leitos de hospitais de Manaus. Segundo a Advocacia-Geral da União (AGU), o governo federal sabia do “iminente colapso do sistema de saúde” do Amazonas por conta da Covid-19 dez dias antes de a crise estourar e que foram realizadas reuniões com autoridades locais quando o Ministério da Saúde detectou que o sistema de saúde do Amazonas estava à beira do colapso. Pazuello afirmou que a velocidade de internações aumentou muito e que “o consumo triplicou, quadriplicou, quintuplicou”, e a empresa White Martins, responsável pelo suprimento, não deu conta da demanda necessária. A multinacional brasileira, no entanto, alega que havia feito um alerta sobre o aumento abrupto no consumo de oxigênio, que saltou de 30 mil metros cúbicos para 76,5 mil metros cúbicos em pouco mais de 15 dias.
Dias antes da da grave crise em Manaus, o ministro da saúde já havia protagonizado um ato falho, quando disse em entrevista que um avião iria até a Índia para trazer 2 milhões de doses de vacina, fato colocado como um grande equívoco pela imprensa do país asiático, o que só ocorreria dias depois. Sem contar nas idas e vindas para o início da campanha de vacinação em todo o País, em demonstração clara de golpes de improviso motivados por decisões do governador de São Paulo, João Doria, desafeto declarado do presidente Bolsonaro, que havia criado um fato político ainda no fim de 2020, ao declarar que a vacinação em seu estado teria início em 25 de janeiro.
Voltando à obra de Lima Barreto, passado o nervosismo inicial como diplomata, bastou a Castelo manter a tranquilidade e seguir emulando seu personagem. Ganhou notoriedade entre os círculos sociais mais altos, assinando colunas em jornais e representando o Brasil no exterior, sempre acompanhado do seu vultuoso aposto. Participação em congressos, jantares, cargos de destaque e bom salário no corpo diplomático. No fim das contas, teria valido a pena tamanha sordidez? Protagonista e interlocutor não têm dúvida que sim. Por fim, o amigo Castro solta um afago, e expressa toda sua “admiração” pela coragem do amigo, que responde: “Olha, se não fosse estar contente, sabe o que ia ser? Quê? Bacteriologista eminente”.
Diferentemente do personagem imortalizado pelo cronista de Todos os Santos, Pazuello tem escorregado na retórica. No caso do colapso em Manaus, veio a público desmentir declarações dadas por ele mesmo dias antes, em que deixava claro a necessidade de priorizar o tratamento precoce contra a covid-19, ao contrário do que recomenda a Organização Mundial da Saúde. Apesar de todos os problemas provocados pela notória falta de gestão e a possibilidade de responder criminalmente pelas mortes ocorridas durante a pandemia do novo coronavírus, antes do fim de semana em que pipocaram notícias sobre sua saída devido a um problema de saúde, não havia indício de que o ministro seria substituído no curto prazo. A interlocutores, o presidente não escondia sua satisfação pela gestão de Pazuello.








O sabor do Saber

                                                                                                                 Fabíola Soares Ferreira  ...